Patrick Manckoundia, Séverine Buatois, René Gueguen, Christine Perret-Guillaume, Marie-Christine Laurain, Pierre Pfitzenmeyer, Athanase Benetos
Archives of Gerontology and Geriatrics 47 (2008) 217–228.
Entre os múltiplos fatores associados a quedas na população idosa, o comprometimento do equilíbrio tem papel dominante. O objetivo deste estudo observacional francês é identificar parâmetros clínicos e demográficos que influenciem no controle do equilíbrio dos idosos. Foram recrutados 2368 idosos da comunidade com 60 anos ou mais, voluntários saudáveis, excluídos portadores de deficiências sensoriais, doenças cardiovasculares, neurológicas, psiquiátricas e ortopédicas graves.
Os indivíduos foram submetidos a história clínica e exame físico completos, incluindo pesquisa de uso de drogas psicoativas e índice de massa corporal (IMC), avaliação cognitiva com MEEM e teste do relógio, auto-avaliação de saúde através de uma escala visual analógica (0 a 10). Os testes de avaliação de equilíbrio utilizados foram: OLS (one leg stand - apoio em uma perna), TUG (timed up and go), RFF (rise from the floor) e STS (sit to stand). A população estudada foi dividida em 4 grupos: Grupo A (sem falha nos testes), Grupo B (falha em 1 teste), Grupo C (falha em 2 testes) e Grupo D (falha em 3 ou 4 testes de equilíbrio).
Em homens e mulheres, os fatores associados de forma estatisticamente significativa com o desempenho dos testes foram: para OLS: idade, IMC e score de saúde; para TUG: idade, IMC, TDR e score de saúde; para RFF: IMC e escore de saúde. Entre o sexo feminino: MEEM para OLS, uso de drogas psicoativas para TUG, idade e TDR para RFF. Para os homens, foi encontrada também relação entre o teste OLS e mais dois fatores: TDR e uso de drogas psicoativas. No STS os resultados foram similares, porém o número de pessoas que falharam nesse teste foi muito baixo.
Em todos os 4 testes aplicados houve associação com a idade. Os mais idosos tiveram pior desempenho, o que é compatível com dados anteriores da literatura. Ocorreu um efeito significativo do sexo no desempenho em todos os testes de equilíbrio: as mulheres têm maior risco de falhar nos 4 testes do que os homens, e o dobro de chance de falhar em pelo menos 1 deles. Esse risco aumentado de alteração do equilíbrio entre as mulheres manteve-se após ajuste dos fatores de confundimento como scores de percepção de saúde e uso de drogas psicoativas.
O IMC foi o principal determinante do desempenho nos testes de equilíbrio e a relação entre obesidade e risco de falhar nos testes foi ainda mais forte entre as mulheres idosas. Outro importante achado foi a influência da cognição nos resultados dos testes de equilíbrio, na ausência de demência. Mostrou também papel importante das drogas psicoativas, que pioram a atenção e causam lentificação psicomotora, aumentando o risco de alteração de equilíbrio. Já existe descrição na literatura entre depressão e piora nas habilidades físicas e de equilíbrio. Contudo, os scores de auto-percepção de saúde foram mais baixos nos indivíduos que falharam nos testes, mesmo na ausência de sintomas depressivos.
Uma limitação desse estudo é o fato de seu desenho ser seccional e não longitudinal. Ainda assim, foi possível demonstrar que idade, sexo feminino, redução da cognição, baixa percepção de saúde e uso de drogas psicoativas estão associados de forma independente ao aumento do risco de alteração de equilíbrio em uma população de idosos aparentemente saudáveis.