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Envelhecimento: o que é normal e o que é doença?

O conhecimento da Fisiologia do Envelhecimento é muito novo. Muitas das observações já constatadas ainda permanecem desconhecidas e, mais do que isso, alguns mitos e estereótipos sobre o que é o envelhecer misturam-se em nossa cultura gerando mais confusão do que soluções. Nas rodas de conversa escutamos: “ser velho é ser doente”, “vou envelhecer e perder memória”, “vou envelhecer e começar a cair”, “todo idoso perde urina”, entre outras inúmeras falas tão comuns no nosso dia a dia. Para que possamos apresentar algumas características do que é “normal” ao envelhecer dividiremos as observações em tópicos: envelhecimento dos segmentos corporais, envelhecimento do cérebro, envelhecimento do aparelho digestivo, envelhecimento do coração, envelhecimento do pulmão e envelhecimento dos rins.

Envelhecimento dos segmentos corporais

A composição de nosso corpo sofre um conjunto de alterações quando envelhecemos. Como podemos observar na Figura 1, ocorre um aumento da gordura corporal, uma redução da massa dos ossos e uma redução da quantidade de água dentro da célula.

 

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Estas pequenas alterações modificam completamente a forma como reagimos a uma série de fatores em nosso dia a dia. Com o aumento da gordura corporal e a redução da quantidade de água todas as medicações que porventura façamos uso sofrerão modificações na sua forma de absorção e distribuição dentro do corpo. Por isso, o médico tem tanto cuidado quanto ao que prescreve e orienta a seus pacientes que estão envelhecendo. Quase todas as trocas de substâncias entre as células de nosso corpo são realizadas tendo a água como substrato. A redução de água em nosso organismo é algo normal do envelhecimento. Porém, esta condição pode predispor o idoso a um risco aumentado de desidratação. Oferta hídrica equilibrada, mesmo que sem sede, deve fazer parte das orientações diárias àquele que envelhece.

O metabolismo do corpo é algo que, também, é reduzido durante o envelhecimento. Metabolismo Basal é a quantidade mínima de energia (calorias) necessária para manter as funções vitais de um organismo em repouso. Após os 30 anos esta função diminui trazendo como repercussão uma alteração da energia em nosso corpo. Felizmente, dada a adaptação de nosso organismo, é possível, através de práticas adequadas em saúde, elevar as reservas de forma que essa perda não comprometa nossa capacidade em realizar nossas tarefas do dia a dia. Seja através de uma alimentação saudável e, em especial, através da atividade física, nossas reservas podem ser melhoradas.

Envelhecimento do cérebro

Assim como outras partes do corpo, nosso cérebro possui grande quantidade de água. Seu volume e tamanho diminuem às custas da redução da água intracelular e, suas células, os neurônios, sofrem uma redução de suas funções ao envelhecer. Em especial às custas da diminuição da velocidade de condução do estímulo nervoso. Um destes aspectos é o tempo de reação. Ao jogarmos uma laranja ao alto temos o impulso, a força e a velocidade muscular adequadas para pegá-la. O idoso também. Entretanto, entre outros fatores, o tempo de execução de tal atividade encontra-se reduzido por essa alteração neuronal.

Envelhecer não significa perder memória. Disfunções reconhecidas no passado como “esclerose” ou “esquecimento” são sinais e sintomas de doenças. A referida “demência senil” é um termo de décadas passadas ainda vigente na cultura popular e nos diagnósticos médicos. Todavia, a ciência avançou bastante e temos critérios estabelecidos para diagnosticar as doenças envolvidas com a perda de memória identificando sua provável ou possível etiologia. No Quadro 1 podemos observar algumas das alterações fisiológicas observadas em nossa cognição.

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Referência: Timiras, 2009

O cérebro é também responsável pelo controle do ciclo entre o ficar acordado e o dormir, conhecido como ciclo sono-vigília. Respeitando os ciclos de sono-vigília de cada um, a maior parte da população em todo o mundo, fisiologicamente, dorme quando anoitece e desperta ao nascer do sol. Assim nossa biologia é desenhada. A luz que adentra pelos nossos olhos percorre as vias de condução nervosa até a área do cérebro responsável por ativar todo um conjunto de hormônios que, através de um intrincado mecanismo, ligam e/ou desligam funções essenciais de nosso corpo. Na cultura popular é muito comum dizer que quem dorme “perde tempo”. Errado! Sono é uma parte integrante e essencial de nossas funções é responsável por “limpar” toda a “sujeira orgânica” produzida por nossas células durante o dia. Nosso corpo não consegue viver sem dormir e perder noites de sono significa, literalmente, morrer mais cedo. Com o envelhecimento, ocorre uma fragmentação do sono ao longo de 24 horas, uma maior quantidade de cochilos diurnos e também uma maior distribuição da qualidade e quantidade do sono no período noturno. Além disso, o tempo para pegar no sono é maior que no jovem e associado a um maior número de despertares noturnos com encurtamento de algumas de suas fases como pode ser observado na Figura 2.

Ainda não é claro para a ciência o impacto real destas observações. Até que ponto as alterações hormonais que ocorrem ao envelhecer são as responsáveis por estas modificações ou vice-versa. Mas para que tenhamos uma boa qualidade de sono medidas ambientais e problemas de saúde devem sempre ser investigados. Sentir insônia ou estar exausto no dia seguinte são indicativos de problemas a serem tratados.

Envelhecimento do aparelho digestivo

É através da comida que nutrimos nosso corpo. O aparelho digestivo é a estrutura responsável por captar, transformar, metabolizar e utilizar todos os nutrientes necessários para nos manter vivos. Cada uma das células que compõe este sistema, da boca até a excreção daquilo que não nos é mais necessário, sofrem alterações ao envelhecermos. Chamamos especial atenção para duas estruturas presentes neste sistema: o estômago e o fígado. O primeiro é responsável por acidificar a alimentação para que elas sejam quebradas em pequenas partículas e, em segmentos digestivos adiante, por mecanismos outros, serem absorvidas.  Quando envelhecemos ocorre uma redução da secreção da quantidade de ácido do estômago e seu volume diminui. Como consequência, de acordo com o tipo de alimento ingerido, o idoso pode apresentar uma saciedade precoce. Para o segundo, o fígado, observamos que ele reduz suas funções de “grande usina de nosso corpo”. Diminui seu tamanho e algumas de suas funções como o metabolismo de algumas medicações. Daí a importância de sempre partilhar com seu médico as drogas que está em uso. O geriatra é treinado a reconhecer os ajustes necessários das medicações junto ao envelhecimento.

Envelhecimento cardiovascular

Tanto os vasos sanguíneos quanto o coração per si sofrem alterações ao envelhecermos. O consumo de oxigênio, a contração do coração, o tempo de recuperação diante de uma atividade física e a condução elétrica estão entre os elementos observados.   Os vasos sanguíneos tornam-se mais rígidos e, com isso, muitas das vezes, a resposta da pressão arterial para modificações de posição do corpo – sentado, deitado e em pé – pode sofrer flutuações. Daí, em indivíduos muito idosos, o cuidado ao controle da pressão arterial.

Envelhecimento respiratório

Nossa caixa torácica torna-se mais rígida, limitando a expansão de nossos pulmões. Nossos pulmões perdem sua elasticidade já que, entre outras sustâncias, algumas proteínas como a elastina e colágeno encontram-se alteradas.  Elas estão entre as responsáveis pela maleabilidade e estruturação da arquitetura pulmonar. Com isso observamos que a capacidade total do pulmão em reter e expelir o ar se modifica. Por isso, temos valores normativos para cada faixa etária, curvas específicas e análises pulmonares que devem ser feitas para cada década ao envelhecermos.

Os alvéolos pulmonares são minúsculos sacos aéreos presentes nos pulmões e envolvidos por diminutos vasos sanguíneos onde as trocas de oxigênio ocorrem. Podem se apresentar isolados ou em grupos. Pelas modificações das proteínas que dão estrutura a estas células, os alvéolos se alteram com o envelhecimento. Seu tamanho aumenta sem nenhum tipo de inflamação ou destruição de sua parede. A capacidade do pulmão é reduzida à medida que os anos vão passando.

Envelhecimento dos rins

Os rins são os mais poderes reguladores do ambiente interno do corpo. Quando envelhecemos ele diminui de tamanho e volume. Suas células, os glomérulos, também diminuem em número e, consequentemente, alteram a função deste órgão. Nesta função de “agente regulador” a filtração, eliminação e equilíbrio do corpo sofrem alterações. Este órgão tem um papel muito importante no controle do equilíbrio entre as substâncias tóxicas e protetoras de nosso corpo realizando o que é conhecido como Homeostasis. Quando envelhecemos ocorra uma discreta redução da habilidade em “limpar a sujeira” de nosso corpo. O profissional de saúde é capaz de calcular como está a saúde de seus rins e, em conjunto, trabalharmos para sua proteção. Algumas doenças como a hipertensão arterial sistêmica e diabetes podem acelerar perdas renais se não forem adequadamente tratadas e acompanhadas.

Considerações finais

Fragmentar as partes não é a melhor forma de compreender o todo. As caraterísticas acima apresentadas estão ocorrendo de forma simultânea em todo o corpo, e, cada um de nós, de acordo com nossa carga genética e fatores ambientais, aceleramos ou desaceleramos este processo.

Conversar com seu assistente de saúde e executar medidas preventivas é a melhor forma de se proteger e se preparar para algumas das alterações normais do envelhecimento. Se informar sobre o que é doença e conhecer seu corpo é uma etapa essencial desta prevenção. A ciência sabe que algumas destas alterações vão ocorrer. Porém, à medida que assumimos a responsabilidade e o cuidado de nós mesmos, é possível postergar o surgimento de muitas das alterações acima descritas. Boa alimentação, atividade física regular e, o mais importante, uma boa cabeça para lidarmos com o fenômeno emocional de nosso dia a dia, são regras essências para a conquista de um envelhecimento bem sucedido.

Texto:
Dr. Virgílio Garcia Moreira
Geriatra Titulada pela SBGG/AMB
Comissão Científica SBGG-RJ

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