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Notícias Ciclo de cinema: afetividade e sexualidade na velhice De julho a setembro de 2009, a SBGG-RJ promoveu em sua sede um ciclo de cinema coordenado pelas professoras Eloisa Adler Scharfstein e Maria Angélica Sanchez. Os três filmes escolhidos abordavam diversas questões referentes à afetividade e sexualidade na velhice. As exibições foram regadas a refrigerante e guloseimas para simular o clima de salas de projeção. Após cada uma delas, ocorreu debate com um professor convidado, buscando situar melhor a platéia e permitir a troca de experiências entre os presentes. O primeiro filme, "Chuvas de Verão" (1976), de Carlos Diegues, apresenta a velhice anteriormente ao aparecimento da “terceira idade”, que no Brasil surge na década de 80, ganhando maior visibilidade no início dos anos 90. Jofre Soares, no papel de Seu Afonso, é o funcionário que acaba de se aposentar e veste o pijama e o chinelo, acreditando que não há nada mais de útil para fazer na vida, já que agora é aposentado e viúvo. Embora esteja desanimado, descrente e desiludido, repentinamente ele é surpreendido pelo envolvimento com uma vizinha que bate à sua porta, Dona Isaura, interpretada por Miriam Pires. A partir daí o filme mostra lindas cenas de amor entre os dois velhos, desconstruindo crenças, sobretudo nos anos 70, de que nesta etapa da vida não se pode mais amar e que os velhos são assexuados. Dentro desta perspectiva, Dona Isaura diz para Seu Afonso: “nós não temos mais idade para isto!” Mas, apesar de todos os preconceitos, eles vivem um belo encontro amoroso. O professor José Francisco de Oliveira, mestre em Filosofia, defendeu a idéia de que “na verdade, o filme não conta uma história, é uma janela aberta através da qual passam os personagens” (conforme entrevista do diretor publicada em O Globo em 28 de junho de 1977). Abarca cinco dias nos quais o olho artístico da câmera capta, através da simbólica janela, fragmentos de vidas vividas e opera o resgate do humano por trás dos silêncios e alaridos e das pequenas e significativas tragédias urbano-suburbanas. O importante a destacar é que, para Diegues, os desejos dos velhos não estão condenados ao fracasso nem moram escondidos no fundo do esquecimento, mas se instalam indestrutíveis naquelas casas modestas de uma tranquila rua do subúrbio do Rio de Janeiro, debaixo das costumeiras chuvas do verão carioca.
O segundo filme, "Do Outro Lado da Rua" (2004), de Marcos Bernstein, traz interpretações magistrais de Fernanda Montenegro e Raul Cortez. Mostra uma outra velhice, trinta anos depois de “Chuvas de Verão”. Montenegro é Regina, uma mulher de 65 anos, divorciada, moradora de Copacabana, que participa de um trabalho voluntário junto à delegacia do bairro denunciando pequenos delitos. Cortez é um juiz aposentado que abrevia a morte da mulher, vítima de câncer terminal. Apesar de, no início, ela supor que ele seja um assassino frio, acaba descobrindo e se encantando por um homem muito especial. Ao contrário da Dona Isaura de “Chuvas de Verão”, Regina justifica sua inibição em ter um contato mais íntimo com um homem usando outros argumentos: refere-se ao seu próprio corpo como “um verdadeiro jogo da velha: cicatrizes e estrias”. Diz ainda: “A gente tem filho, tem neto. Eu não consigo me ver pelada e você em cima de mim”. Ao que ele retruca, esbanjando bom humor: “Basta fechar os olhos”. A relação com o corpo físico é muito mais natural, tratam-se de corpos erotizados, filhos da revolução sexual dos anos 60. O filme mostra também como o amor pode transformar, e Regina vai progressivamente se despindo de sua rigidez para encontrar novos significados sobre as relações humanas, inclusive as familiares. Neste encontro, um acaba se colocando no lugar do outro, mostrando a cumplicidade e a solidariedade que pode predominar em uma relação amorosa na idade avançada. Eloisa Adler Scharfstein, psicanalista e gerontóloga, debateu o filme, enfatizando a diferença entre sexualidade e genitalidade e sublinhando ainda que essa última é apenas parte da primeira. Mostrou também que a sexualidade humana ancora-se na noção de prazer e desprazer e como tal é acronológica.
Fechou o ciclo o filme espanhol "Elza & Fred" (2005), de Marcos Carnevale. Trata-se da história de um viúvo que redescobre a alegria de viver através do contato com uma senhora portadora de doença terminal. Foi descrito por um dos presentes como "o triunfo da possibilidade de sonhar" e tocou fundo os corações, sobretudo na recriação da clássica sequência da Fontana di Trevi de "La Dolce Vita". Em uma discussão amigável que gerou certa polêmica, o médico geriatra Daniel Azevedo, do Hospital de Aeronáutica dos Afonsos, enumerou os méritos do filme como trampolim para debate de temas comuns na prática clínica enquanto o criticou duramente como cinema. Para ele, "Elza & Fred" mostra de forma realista a depressão num idoso e toca na questão do respeito à autonomia. No entanto, não se sustenta como cinema mais sério em função do roteiro frouxo e repleto de lugares comuns, bem como da direção primária e do uso manipulador da música. Ainda assim, de acordo com a opinião da professora Eloisa Adler, o filme problematiza a questão da medicalização de situações de vida, como no caso da viuvez e do isolamento, mostrando a importância das relações humanas e amorosas – quiçá o melhor de todos os remédios – e fechando o ciclo com louvor.
Curiosamente, os três filmes apresentavam personagens interagindo através de uma janela, sugerindo de forma simbólica que a velhice é uma etapa da vida onde os velhos são observadores sensíveis, não mais no palco, mas na platéia.
Para 2010, a SBGG-RJ está programando um novo ciclo de cinema, desta vez focando as instituições de longa permanência. Fique ligado.
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