GERONTOLOGIA:
SCIENZA NUOVA?
REFLEXÕES ACERCA DO DISCURSO CIENTÍFICO SOBRE O ENVELHECER
Autoras:
Ana Lúcia Azeredo Couto
Psicóloga e Mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia
Social pelo EICOS/UFRJ.
Maria Lúcia
Rocha-Coutinho
Professora Adjunta do IP/UFRJ
Doutora em Psicologia pela PUC do Rio de Janeiro.
Consultora ad hoc do CNPq e da FAPERJ e pesquisadora do CNPq
Introdução
Querer apreender a concepção de velhice de forma pura
e essencial é como pegar o vazio. A velhice que investigamos
se constitui num termo sem significação em si mesmo.
É uma forma significante aberta a significados baseados num
sistema de convenções inserido numa cultura.
Cultura é aqui entendida como fenômeno de linguagem,
conforme abordagem de Ortiz (1986) ou, melhor dizendo, como universo
simbólico que ordena a história da humanidade. Isso
nos conduz à visão de Hall (2000), que concebe as
culturas como comunidades imaginadas, compostas por símbolos
e representações. Segundo este autor, a cultura é
discurso, no sentido de que é “um modo de construir
sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações
quanto a concepção que temos de nós mesmos.”
(Hall, 2000, p. 50)
A cultura, por diversos caminhos – artes, política,
literatura, ciências, entre outros –, constrói
discursivamente a velhice ao animar, com significados, sua forma
inanimada.
Chegamos, neste momento, a um ponto fundamental nesta argumentação:
a idéia de velhice como construção discursiva
dentre as inúmeras que dinamizam o universo simbólico
que é a cultura. Mas, longe de pôr fim à análise
que estamos empreendendo, é aqui que ela se inicia.
Ora, a idéia de construção nos remete à
idéia de mediação. Sendo a velhice um construto,
perguntamo-nos: quem a constrói?
Abramos parênteses para esclarecer o modo pelo qual entendemos
a palavra mediação. Encontramos em Orlandi (1983)
a abordagem de mediação, não como instrumento,
mas, antes, como relação constitutiva, ação
que modifica, que transforma.
A análise que propomos enfoca o discurso científico
em seu papel de mediador no processo de constituição
da velhice.
Percursos
do discurso científico sobre o envelhecer
O século XX marcou o desenvolvimento de áreas científicas
voltadas especificamente para o processo de envelhecimento humano.
Papaléo Netto (2002) nos conta que, em 1903, o médico
Elie Metchnikoff defendeu a idéia de um campo de investigação
dedicado ao estudo do envelhecimento, a Gerontologia, termo composto
por gero (velho) e logia (estudo ou conhecimento). Inicialmente,
segundo Groisman (1999), a Gerontologia se limitava a intervenções
médicas e se restringia ao âmbito acadêmico.
A partir da década de 1940 torna-se multidisciplinar e estende-se
além dos limites dos consultórios médicos.
Em 1909, o médico Ignatz Nascher criou uma nova especialidade
da medicina, voltada para o tratamento das doenças de idosos
e da própria velhice (Papaléo Netto, 2002). Introduziu
o termo Geriatria, em que gero se associa a iatrikos (tratamento),
significando o estudo clínico da velhice.
Com base na exposição de Papaléo Netto (2002),
a Geriatria se estrutura, atualmente, no contexto gerontológico.
A Gerontologia, por sua vez, pode ser entendida, segundo o autor,
como um campo científico “multi e interdisciplinar,
cujas finalidades são o estudo das pessoas idosas, as características
da velhice enquanto fase final do ciclo de vida, o processo de envelhecimento
e seus determinantes biopsicossociais.” (Papaléo Netto,
2002, p.07) O autor apresenta as três divisões do campo
gerontológico: a Gerontologia social, que aborda aspectos
não-orgânicos (antropológicos, psicológicos,
legais, políticos, sociais, econômicos, ambientais
e éticos); a Geriatria, voltada para os aspectos médicos
da assistência à saúde em nível curativo
e preventivo; e a Gerontologia biomédica, que estuda o envelhecimento
sob o ponto de vista molecular e celular.
É interessante observar que em função de a
Gerontologia ser um campo muldidisciplinar, ela comporta uma infinidade
de significados de envelhecimento, que variam conforme a área
do saber, como, por exemplo, a Biologia, a Psicologia e a Sociologia.
Mas a diversidade se estende ainda mais quando pensamos que cada
uma dessas áreas, por sua vez, comporta outra variedade de
paradigmas que embasam concepções distintas do envelhecer.
Jeckel-Neto e Cunha (2002) nos apresentam uma série de teorias
biológicas do envelhecimento. Segundo os autores, algumas
concepções postulam ser a velhice o resultado de uma
deterioração devido à acumulação
de danos moleculares aleatórios (teorias estocásticas).
Outras concepções se encontram enraizadas em uma abordagem
que concebe o envelhecimento como resultado de uma programação
genética (teorias sistêmicas).
No campo da Psicologia, Neri (2002) apresenta três paradigmas
que sustentam uma multiplicidade de teorias psicológicas
do envelhecimento. Em sua explanação, algumas teorias
fundamentadas no paradigma de mudança ordenada, de orientação
organicista, afirmam que o desenvolvimento é organizado por
eventos de natureza ontogenética, descrevendo-o como processo
balizado por estágios que seguem a seguinte tendência:
crescimento, estabilidade e declínio (essa última
etapa referindo-se ao envelhecimento). Outras teorias fundamentam-se
no paradigma contextualista, preconizando a velhice como resultado
da mútua influência entre o indivíduo e o ambiente
social. Um terceiro paradigma apontado pela autora é o de
desenvolvimento ao longo de toda a vida (life-span), de orientação
dialética, que abrange aspectos das perpectivas organicista
e contextualista e percebe o envelhecimento como fruto da interação
do organismo com o ambiente, ambos ativos e em mudança, numa
tensão constante.
No tocante às teorias sociológicas, Siqueira (2002)
as classifica a partir de um critério temporal, ou de gerações:
na primeira geração (teorias elaboradas ente 1949
e 1969), o envelhecimento é considerado como fenômeno
não-dependente do contexto e dos fatores sociais; as teorias
da segunda geração (elaboradas entre 1970 e 1985)
enfatizam a velhice como categoria social, ou seja, como resultado
da organização da sociedade; as da terceira geração,
mais recentes, concebem uma influência mútua e ativa
entre os idosos (atores sociais) e a estrutura social quanto às
formas de atribuir significados ao processo de envelhecer.
Nessa trajetória, a velhice vem sendo tematizada de diferentes
formas pelo discurso científico. Acompanhar a progressão
dos significados do envelhecimento ao longo da constituição
da Gerontologia e da Geriatria nos dá acesso ao seu caráter
histórico e inacabado.
Implicações
do discurso científico na construção do envelhecer
Quais são as implicações do discurso científico
na construção simbólica do envelhecer?
Para respondermos a essa questão, é necessário
refletirmos sobre o conceito de discurso. Nessa reflexão,
Foucault (1996) nos interpela da seguinte forma: “o que há
de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos
proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?”
( p. 08)
Inquietamo-nos diante da pressuposição contida nessa
pergunta: há algo de perigoso nos discursos. Mas o quê,
exatamente?
O próprio Foucault (1996) responde: o perigo está
no fato de os discursos serem habitados por ideologias e, por isso,
serem veículo de exercício de poder.
De sua resposta, desdobram-se outras indagações a
respeito dos significados de ideologia e de poder.
O termo ideologia é compreendido por Orlandi (1990) como
“a direção nos processos de significação,
direção esta que se sustenta no fato de que o imaginário
que institui as relações discursivas (em uma palavra,
o discursivo) é político.” (p. 36) A partir
dessa perspectiva, consideramos ideologia como um corpo de crenças
e normas que constitui explicações e justificativas
sobre a/para a realidade social e política.
Já o termo poder, na concepção foucaultiana,
refere-se a “um conjunto de ações que se conduzem
e respondem umas às outras.” (Foucault, 1995, p. 240)
Nesse sentido, o exercício do poder é compreendido
como uma ação sobre ações.
Bourdieu (1989) traz uma análise sobre o poder simbólico,
que confere aos discursos a função de constituir a
realidade. E é nessa função que reside o perigo:
os discursos não apenas representam realidades, como também
as (des)constróem.
Respondida a questão sobre o que há de perigoso nos
discursos, podemos, finalmente, passar à questão sobre
o que é discurso. Dentre os conceitos elaborados por uma
variedade de enfoques, a perspectiva escolhida para dar fundamento
a este trabalho é a da Análise de Discursos que concebe
discurso como prática social.
Para esclarecer essa perspectiva, buscamos auxílio na explanação
de Milton José Pinto (1999):
Definir os discursos como práticas sociais implica que a
linguagem verbal e as outras semióticas com que se constróem
os textos são partes integrantes do contexto sócio-histórico
e não alguma coisa de caráter puramente instrumental,
externa às pressões sociais. (p. 24)
Para Fairclough (2001), essa definição significa conceber
o discurso como modo de ação. Isto é, implica
numa relação dialética entre discurso e sociedade:
a sociedade sofre os efeitos do discurso e esses são moldados
e restringidos pela estrutura social. A esse respeito, Orlandi (1990,
p. 35) afirma: “A relação com a história
é dupla: o discurso é histórico porque se produz
em condições determinadas e projeta-se no ‘futuro’,
mas também é histórico porque cria tradição,
passado, e influencia novos acontecimentos.”
Fairclough (2001) distingue três efeitos do discurso: a construção
das identidades sociais ou dos sujeitos sociais, a construção
de relações sociais e a construção de
sistemas de conhecimento e crença.
A partir do exposto, estamos considerando os discursos – ou
práticas discursivas – não apenas através
de sua função puramente comunicativa, informativa.
Nós os consideramos como uma das práticas sociais
que funcionam como meio de se exercer poder simbólico. A
ideologia que subjaz à elaboração discursiva,
sob a aparência de neutralidade, lhe confere indiscutível
poder de persuasão, ainda que, muitas vezes, não nos
demos conta disso. Os discursos incitam, induzem, ampliam, restringem,
permitem, inibem, definem as percepções das coisas,
dos acontecimentos, das relações.
Ressaltamos que os emissores/narradores/locutores não aparentam
exercer poder através de seus discursos. Trata-se de uma
forma bastante particular de persuasão, baseada na naturalização
das identidades, das relações e dos conhecimentos
e crenças. Ou seja, o exercício desse poder é
dissimulado e, portanto, de difícil reconhecimento, tanto
por quem o exerce como por quem a ele se submete. Sobre isso, Bourdieu
(1989) salienta: “o poder simbólico é, com efeito,
esse poder invisível o qual só pode ser exercido com
a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão
sujeitos ou mesmo que o exercem.” (pp. 07-08)
O poder do discurso é proporcional à sua hegemonia.
Ora, a hegemonia do discurso científico em nossa sociedade
ocidental contemporânea torna seu dizer soberano. Isso significa
que aqueles que falam em nome da Ciência são concebidos
como agentes privilegiados atuantes na produção, reprodução
e circulação de discursos. Tornam-se, acima de tudo,
agentes históricos que operam intensamente uma transformação
simbólica da realidade.
Neste percurso reflexivo, tornamo-nos providos de fundamentação
para argumentar que o discurso científico acerca da velhice
possui uma função simbólica fundamental: promover
o processo psicossocial do envelhecer, contribuindo para constituir
identidades de idosos, relacionamentos com e entre os mais velhos
e saberes e crenças sobre o envelhecimento.
A construção
do envelhecer
O discurso científico transformou a velhice numa etapa diferenciada
no processo de construção do curso de vida moderno,
construído a partir de um processo que compartimenta a vida
em faixas etárias distintas. De acordo com Birman (1995),
a periodização da vida, tal como a concebemos –
infância, adolescência, idade adulta e velhice –,
origina-se na ideologia cientificista do evolucionismo, que insere
o desenvolvimento do organismo humano em um modelo construído
pela ordenação de seqüências previsíveis.
A legitimação dos limites entre as fases de desenvolvimento
humano funda cientificamente as distinções entre as
diferentes faixas etárias. Realizando a cronologia da existência,
o discurso científico institui o dualismo juventude/velhice
e contribui para delimitar os lugares do jovem e do velho em nossa
sociedade. Ambos passam a se reconhecer e a ser reconhecidos como
o oposto do outro.
Por trás desse processo, há o exercício dissimulado
do poder simbólico. Segundo Rocha-Coutinho (1995), os dualismos
“contribuem de maneira importante para a manutenção
das principais formas de oposição, alienação
e dominação.” (p. 28)
A construção de pares de oposição tem
suas origens no racionalismo e constitui uma das principais características
do discurso científico.
É interessante observar que as forças sociais e históricas
que contribuíram para discriminar os velhos dos jovens não
são reveladas. Como assinala Bourdieu (1996), as diferenças
e limites arbitrariamente estabelecidos entre as categorias, tais
como as de faixa etária, são apresentados como naturais.
Para o autor,
O trabalho de inculcação através do qual se
realiza a imposição duradoura do limite arbitrário
visa naturalizar as rupturas decisórias constitutivas de
um arbitrário cultural – expressas por pares de oposições
fundamentais.” (Bourdieu, 1996, p. 103)
Trata-se, portanto, da criação de mecanismos discriminatórios
que consistem em conferir aos indivíduos um significado que
consiga abarcar o que eles devem ser ou vir a ser. Nesse sentido,
categorias são impostas, cabendo aos indivíduos aceitá-las
e identificar-se com elas a fim de serem reconhecidos e se reconhecerem.
Isto é, a sociedade, ao impor formas de categorizar as pessoas
como jovens e velhas, estabelece atributos – condutas esperadas
– para seus membros e a presença ou a ausência
desses atributos irá determinar o seu grau de aceitação
social (Goffman, 1988).
Há um processo de alienação de si e do outro,
decorrente de pré-concepções que, segundo Goffman
(1988), são transformadas em “expectativas normativas,
em exigências apresentadas de modo rigoroso.” (p. 12)
De acordo com o exposto, consideramos as categorizações
que institucionalizam o curso vital como importante referência
para a distribuição de poder e prestígio, contribuindo
para definir, assim, as relações entre os mais jovens
e os mais velhos, num contexto que exalta a juventude e exclui a
velhice.
Gerontologia:
scienza nuova?
A reflexão do papel do discurso científico como construtor
simbólico do envelhecer aponta para os desafios de um mundo
em transformação, uma vez que o processo de conhecimento
se insere num amplo contexto de mudanças sociais e culturais
que estremecem as bases epistemológicas das ciências
e nos desafiam a repensar abordagens vigentes.
O avanço tecnológico singulariza e transforma a cultura
contemporânea através dos processos de globalização.
Assim, acontecimentos locais são influenciados por fatos
que ocorrem do outro lado do globo e uma quantidade arrebatadora
de novos conhecimentos desponta.
Dentre os efeitos de tais transformações, podemos
mencionar a complexificação das relações
pessoais e institucionais, seja no nível artístico,
político, econômico ou científico.
Interessa-nos, particularmente, os efeitos sobre o campo da Ciência.
É ela a grande promotora e beneficiadora do arrebatador avanço
da tecnologia que gera a multiplicação voraz do volume
de conhecimento. Entretanto, como alerta Trein (1996), não
basta pensarmos, apenas, que a contemporaneidade se caracteriza
pela aquisição de novos conhecimentos: “há
algo novo no conhecimento” (Trein, 1996, p. 37). Em sua explanação,
o autor nos leva a observar o salto de uma quantidade para uma nova
qualidade no conhecimento:
O que posso concluir, agora, é que o nosso horizonte de apreensão
da realidade já não é mais aquele definido
pelas leis da física clássica. Ele se ampliou, rompendo
o tempo histórico, e nos fez contemporâneos da totalidade
do mundo. Houve um considerável alargamento da realidade
percebida por nós, o que significa uma mudança quantitativa
que resultou em uma nova qualidade, ou seja, um movimento dialético.
A realidade de hoje difere da realidade com que tínhamos
contato anteriormente, da realidade que era nosso objeto de conhecimento
antes que houvesse condições tecnológicas de
nos tornar contemporâneos de um evento acontecendo em qualquer
ponto do planeta ou no horizonte de nossa compreensão científica
da realidade. (Trein, 1996, p. 41)
O que há de novo no conhecimento? A complexidade. Incontornável
como nunca, o complexo tende a ser incorporado como objeto de estudo:
os paradigmas clássicos tornam-se insuficientes e, por vezes,
insipientes. Faz-se necessário buscar novos paradigmas para
nos balizarmos (Pedro, 1997).
Abramos parênteses em nossa análise para refletirmos,
brevemente, sobre a palavra complexidade. Nesta reflexão,
torna-se mister o encontro com Morin (1991), que nos brinda com
seu estudo sobre o pensamento complexo.
Inicialmente, o autor dissipa duas ilusões acerca da questão.
A primeira refere-se à crença de que a complexidade
se opõe à simplicidade. O pensamento complexo recusa
a perspectiva simplificadora que mutila, reduz e torna unidimensional
o conhecimento sobre a realidade. Entretanto, segundo Morin (1991),
ele comporta, de forma integradora, os modos simplificadores de
pensar. Ou seja, o complexo não é simplificador, o
que não significa, no entanto, que não possa ser simples,
claro e preciso.
A segunda ilusão refere-se à confusão entre
complexidade e completude. O pensamento complexo segue para a multidimensionalidade
do conhecimento. Contudo, toma como base a impossibilidade do conhecimento
absoluto. Nas palavras de Morin (1991, p. 09), a complexidade “comporta
o reconhecimento de um princípio de incompletude e de incerteza.”
A complexidade, afirma o autor, retorna ao campo científico
pela via das ciências ditas exatas, em particular pela Física
Quântica. Descobriu-se um fenômeno de desordem no universo
físico e admitiu-se o princípio da improbabilidade.
Quase que simultaneamente, essas evidências migraram para
os estudos do homem. Segundo Morin (1991, p. 18-19):
é evidente que os fenômenos antropo-sociais não
poderiam obedecer a princípios de inteligibilidade menos
complexos que os doravante requeridos para os fenômenos naturais.
É-nos preciso enfrentar a complexidade antropo-social e não
dissolvê-la ou ocultá-la.
Isso não significa, contudo, que antes não fôssemos
complexos. Não se trata da descoberta do complexo, mas, antes,
trata-se de uma nova atitude frente ao complexo. Conforme assinala
Pedro (1997, p. 74), o complexo “torna-se modo de inteligibilidade
e, conseqüentemente, passa a ser objeto de estudo sistemático.”
No paradigma clássico, a complexidade surge como elemento
de contradição que confunde a razão e leva
ao erro. No paradigma da complexidade, ao contrário, as contradições
não significam um erro. Alcançar elementos contraditórios
significa “atingir uma camada profunda da realidade que, justamente
porque é profunda, não pode ser traduzida para a nossa
lógica.” (Morin, 1991, p. 82) É nesse sentido
que podemos pensar a contradição como elemento constituinte
da complexidade, e a complexidade como elemento inalienável
do real.
Morin (1991) denomina scienza nuova a perspectiva científica
que adota o paradigma da complexidade em sua constituição
epistemológica e em sua conduta metodológica.
Pensar a Gerontologia como scienza nuova não significa afirmá-la
como tal, e sim indagar acerca dos efeitos das transformações
contemporâneas sobre seu campo de conhecimento.
Pelo menos um aspecto da Gerontologia pode ser compreendido como
sinal de mudança paradigmática: sua própria
constituição como campo que se aproxima de uma perspectiva
interdisciplinar do conhecimento. No contexto gerontológico,
propõe-se uma interlocução entre diferentes
saberes: Medicina, Antropologia, Psicologia, Pedagogia, Literatura,
Artes, Filosofia, entre outros.
Assim, a Gerontologia apresenta-se no cenário atual com um
modelo teórico e prático que se pretende interdisciplinar.
É certo que sua proposta pressupõe uma concepção
do envelhecimento e da velhice em termos complexos.
Se a interlocução entre os diversos saberes é
parcial ou total, não nos cabe aqui avaliar. Cabe-nos constatar
que a tendência contemporânea ao reconhecimento da complexidade
se faz presente no discurso gerontológico.
Considerações
finais
A proposta dos novos paradigmas é a seguinte: “o objeto
não deve somente estar adequado à Ciência, a
Ciência deve igualmente estar adequada ao seu objeto.”
(Morin, 1991, p. 64) Para tanto, é preciso pensar em novas
formas de tematizar a velhice, enfatizando a responsabilidade coletiva
e valorizando a experiência singular e vital do envelhecer.
Mas como abordá-la de modo diferente se os significados hegemônicos
impelem a abordagens contrárias?
Fairclough (2001), inspirado no pensamento gramsciano, nos traz
o conceito de hegemonia como liderança ideológica
parcial e temporária, portanto instável. A temporalidade
e a instabilidade dos significados hegemônicos se dão
justamente por sua parcialidade. Isto é, por não serem
absolutos, os significados coexistem com outros.
Para Bourdieu (1989), a coexistência de significados em um
mesmo campo faz com que, no seio do discurso, haja disputas, lutas
para conquista de espaços e para obtenção de
hegemonia.
Sendo palco de luta ideológica, o discurso científico
torna-se meio possível de transformação social.
Fairclough (2001) advoga a existênca de uma “luta ideológica
como dimensão da prática discursiva, uma luta para
remoldar as práticas e as ideologias nelas construídas
no contexto da reestruturação ou das transformações
das relações de dominação.” (p.
117)
Há uma tendência contemporânea de revisão
de estereótipos. Podemos inserir essa tendência no
bojo do que Foucault (1995) denomina “luta contra as formas
de sujeição” (p. 236). Esse tipo de luta, segundo
o autor, está se tornando cada vez mais importante na atualidade.
Caracteriza-se pela recusa a abstrações que, através
de violência ideológica, ignoram as individualidades
e impõem modos de ser e de se reconhecer.
Acompanhando essa tendência, o discurso científico
sobre a velhice pode contribuir para uma sucessão de reconstruções
de seu dizer. Assim, consideramos a possibilidade de o discurso
científico realizar uma inversão dos significados
hegemônicos sobre o envelhecimento e, em parceria com os próprios
idosos, contribuir para a elaboração de um dizer que
inaugure uma nova história da velhice em nossa sociedade.
Essa parceria é condição fundamental para se
resgatar o lugar social da velhice e reconhecer simbolicamente o
envelhecer, estendendo-se ao reconhecimento da pessoa idosa como
sujeito psíquico existente e como agente social.
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Conteúdo em Geriatria: Rodrigo Serafim, Aline saraiva, Bernardo Loures Valle e Daniel Azevedo.
Conteúdo em Gerontologia: Juliana Santos.