ARTIGOS

Palestra apresentada no : III CONGRESSO DE GERIATRIA E
GERONTOLOGIA DO RIO DE JANEIRO, Agosto de 2003.

MARCAS DO TEMPO – ENVELHECIMENTO:
A FAMÍLIA E SUA TRAJETÓRIA ENTRE VALORES E GERAÇÕES

José Francisco P.de Oliveira
Mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana ( Roma – Itália );
Professor de Filosofia e Sociologia das Faculdades Integradas Bennett;
Professor de Filosofia Antropologia do curso de enfermagem ( CEN – Hospital de Clínicas de Niterói – RJ );

Eu não estava sabendo bem como começar o texto. Foi então que me lembrei, meio de repente, antes de quaisquer considerações sobre valores e gerações, do Retrato de Família que o saudoso Drummond (l967) registrou em A Rosa do Povo: Este retrato de família / está um tanto empoeirado. / Já não se vê no rosto do pai / quanto dinheiro ele ganhou. / Nas mãos dos tios não se percebem / as viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, / sem memórias da monarquia. / Os meninos, como estão mudados. / O rosto de Pedro é tranqüilo, / usou os melhores sonhos. / E João não é mais mentiroso. / (...) / Ficaram traços da família / perdidos no jeito dos corpos. / Bastante para sugerir / que um corpo é cheio de surpresas. (...) / Quem sabe a malícia das coisas, / quando a matéria se aborrece? / O retrato não me responde, / ele me fita e se contempla / nos meus olhos empoeirados. / E no cristal se multiplicam / os parentes mortos e vivos. / Já não distingo os que se foram / dos que restaram. Percebo apenas / a estranha idéia de família / viajando através da carne.

Este retrato se coloca aqui como um retrato de qualquer família, dessas nossas, que já nem são tão assim, mas que continuam inexoravelmente viajando através de nossas carnes e da história.
O tema são as marcas do tempo nas relações entre as gerações e os valores que aí se articulam. E como é difícil falar de valores e de gerações por sobre um tempo que escorrega, corre como um rio que vai nos carregando.

Sabem? Os antigos gregos, no período clássico, empregavam duas palavras para nomear o tempo, kronos e kairós. O kronos era o tempo do calendário, o tempo cronológico, o tempo em relação ao qual nós não somos propriamente sujeitos; o tempo medido por unidades convencionais e arbitrárias: um ano será um ano, um século será um século, e, assim, uma hora e um minuto. Portanto, um tempo inexorável, fatal, que passa por mim e me faz passar por ele, sem que eu nele possa interferir, possa atuar. Dominante, poderoso, a ponto de ter sido antropomorfizado: o kronos era um deus.

O kairós significava, entretanto, o tempo que eu inauguro, o tempo do qual nós somos os sujeitos, somos os senhores. O tempo que não é medido por unidades referenciais, mas que se cria, existe, vale e dura, na proporção da intensidade com que eu o vivencio, experimento, padeço: cinco minutos, por exemplo, de espera pela pessoa querida pode durar o equivalente a horas e, por outro lado, as horas de convivência seguintes acabam passando num átimo, supreendentemente rápidas.

É na dimensão deste tempo kairótico que eu me coloco, ao falar de envelhecimento, família e sua trajetória. Porque valores e gerações não se articulam e passam como se fosse numa crônica de efeméride. Esse tempo, por outro lado, também não flui no vazio. Ele acontece no espaço do pessoal, da casa, do aconchegante, do verdadeiramente familiar e também no universo da rua, do anonimato, do impessoal, onde não temos vez nem voz; ou simplesmente entre os dois, “em um espaço reservado ao mistério, à renúncia do mundo”. É na dimensão deste tempo kairótico que gerações e valores se constroem e se desmontam.

Em A casa e a rua, Roberto Da Matta (1985) mostra que estes espaços , o da família e suas circunstâncias, são categorias sociológicas, que determinam nas pessoas mudanças de atitudes, valores e princípios, gestos, roupas, assuntos e papéis sociais. É aí, na casa e na rua, na família e suas circunstâncias, que se criam, simultaneamente, pontes, contrastes, oposições, trocas e complementaridades.

De qualquer forma, será assim e agora, nesse tempo e nesses espaços, refletindo, ouvindo e lembrando de virtudes e defeitos, que os mais velhos se põem meninos, meio perplexos, meio revoltados com um mundo que avançou tão depressa e de modo tão opressor, que chegou a fazê-los misturar o passado com o presente e convidá-los, assim, a se reconciliarem com suas mágoas e decepções, deixando-os profundamente felizes por terem vivido e por estarem vivendo, alternando os momentos heróicos com os mais mesquinhos do dia a dia, que legam como herança para os seus e para o mundo.

Foi nesse sentido, em suas Curvas do tempo, que o quase centenário mestre Oscar Niemeyer (1998) se viu e nos emociona ao afirmar: “Releio este livro e sinto que nele duas pessoas distintas aparecem. Uma voltada para o lado bom da vida, dessa vida divertida que sempre me atraiu. Outra, pessimista diante dela e dos homens, revoltada contra este mundo injusto em que vivemos. (...) Tudo isso explica os momentos de exaltação e angústia que se alternam em minha pobre vida. Mais intensos e sentidos quando de amizade se tratava. Aos amigos, como os estimei, como os atendi! (...) E a família... Como sempre a amei! Como de longe, ao lembrá-la, me comovia e de perto a adorava! (...) E assim correu minha existência. Nunca olhei para trás. Nunca me critiquei pelas faltas cometidas. Sou filho da natureza, um pequeno e humilde ser nela inserido, e para ela transfiro – em parte, pelo menos – minhas qualidades e defeitos. Foi assim que ela me fez”.

Ele integra tempo, valores e gerações em uma dimensão maior, a dimensão como que ecológica da mãe-natureza, que acaba absorvendo e conciliando o lado bom e o lado mau, alternados em nossa caminhada.

E agora, o que dizer das marcas do tempo nas relações entre as gerações, nesse instável bojo da família, transferindo para as curvas deste percurso qualidades e defeitos?
O que dizer dessa família que começa o terceiro milênio parecendo não se reconhecer e buscando uma identidade que parece ter se esvaído?
Quanta coisa poder-se-ia falar em termos de mudanças na compreensão da moral e seus valores, da ética e seus princípios; valores e princípios que se tornaram tão relativos, pois foram vividos em um fluxo também cravado de transformações; vividos em um tempo que foi mudando mais rápido do que a nossa capacidade de reflexão em nossa caminhada para o envelhecimento?
Vamos analisar, então, mais ordenadamente esse início de milênio.

Creio que ainda não conseguimos medir os efeitos e conseqüências dos grandes fenômenos sociais que surgiram quase que de repente e hoje causam grande impacto em nossas cabeças, em nossas casas e nossas ruas, em nosso trabalho e nossas emoções, em nossos sonhos e nossa vida. E, sobretudo, em nosso processo de envelhecimento.

Faz-se mais do que legítimo se perguntar: o que sobrará amanhã do vendaval da globalização? Este fenômeno tão falado que reduz o mundo a um grande mercado que homogeneíza a cultura e os comportamentos, não reconhecendo nem admitindo as diferenças pessoais e grupais, restringindo-se à dimensão da utilidade, desprezando a dimensão do sentido, excluindo aqueles que vão envelhecendo, porque vinculam a vida, o conhecimento científico e suas tecnologias unicamente à produção material e ao lucro imediato.

Que conseqüências advirão daqui a pouco da crescente diluição das fronteiras éticas, que levam a confundir quantidade e qualidade, o essencial e o acessório, fazendo com que os fins justifiquem os meios (mesmo os mais violentos)?

Que resultados serão produzidos – insisto – por esta lenta diluição das fronteiras éticas que promove uma enorme con-fusão entre verdade e utilidade, entre sucesso e fracasso, entre participação e exclusão, entre idade e produtividade, entre atividade e envelhecimento, enfim, entre o humanamente aceitável e o humanamente rejeitável?

E a violência, tornada tão trivial e amplamente instalada sob todas as formas na rotina da sociedade e no dia a dia de nossas famílias, em nossas casas e nossas ruas. Indubitavelmente já se colocam bem evidentes os seus efeitos, atingindo principalmente os mais fragilizados.

Na verdade, não vivemos só no plano do imediato, mas no plano do sentido, da busca de sentido. Não somos animais-máquinas; somos seres simbólicos. Não podemos cair no risco do exemplo descrito por Rubem Alves (1981), de um velho açougueiro alemão que embrulhava carne com partituras de Bach, já que, para ele, elas não tinham outro sentido a não ser o de folhas de papel, muito boas para se embrulhar carne... Ele não era capaz de entender o contexto simbólico, não conseguia ver o sentido das pautas nem ouvir a música escondida no papel.

Na maioria das vezes, na raiz dos fenômenos negativos nas relações entre as pessoas, está um entendimento equivocado da idéia e da experiência de liberdade, concebida não como a capacidade de cada um criar e realizar um projeto pessoal a partir de seus objetivos mais originais e de seus horizontes mais queridos, porém, como uma espécie de força autônoma de afirmação individual, levada a olhar unicamente para seu próprio e restrito espaço, insensível aos outros – não raramente contra os outros – visando apenas o bem-estar egoístico e egocêntrico.

É claro que, como pano de fundo, não se pode deixar de levar em conta a realidade mais contundente de nossa sociedade atual: o aperto que aflige a instável classe média e o sofrimento que atordoa as classes mais carentes, calejadas nas agruras da pobreza cada vez mais irreversível: faltam a muitas famílias, muitas mesmo, os meios fundamentais para a sobrevivência e dignidade, o alimento, o trabalho, a habitação, os medicamentos; faltam, na verdade, as mais elementares liberdades, as mais simples possibilidades de escolha, as mais razoáveis condições de participação, falta, enfim, a cidadania.

Nas camadas mais ricas, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade consumista, paradoxalmente, entretanto, unida a certa angústia e incerteza sobre o futuro, roubam a homens e mulheres a generosidade e a coragem de se abrirem aos outros em termos de acolhimento e solidariedade.

Como é importante para cada um de nós, em familia, seja qual for nossa posição social, demonstrarmos aos nossos idosos que estes são uma forte razão de felicidade e não considerá-los um estorvo que incomoda, uma espécie de ameaça da qual é preciso defender-se!

Como quer que seja, mais do que em séculos passados, a família do nosso tempo precisa restaurar a importância dos valores morais como sendo essencialmente os valores da pessoa humana.
Sim, é na família que deve se originar o processo de construção da consciência ética e moral; uma consciência que consolida a capacidade de julgar e discernir, a capacidade de juntar a sabedoria à ciência, visando à promoção da pessoa humana na sua verdade, na sua liberdade, na sua dignidade, na sua totalidade, afinal. Uma consciência sábia, capaz de ler e interpretar os sinais e marcas dos tempos.
Sem dúvida, é preciso urgentemente recuperar a sabedoria que é construída e se enriquece no tempo, que nos leva à competência de ver, de interpretar, de ouvir, de acolher, de buscar, de recomeçar, de atuar, de crer nos projetos, de tolerar, de dar-as-mãos, de contemplar, de deixar-se tomar, de criar e principalmente de testemunhar isso tudo.

A verdade é que cada um de nós se fez e se faz nas curvas concretas do tempo e no espaço familiar da casa. E aí constrói histórias diferentes. Tão ricas exatamente porque tão diferentes, integrando-se em um tecido multiforme – a família.

Então, mais do que conflito de gerações, dá-se na família o encontro de histórias e experiências, de sucessos e fracassos, de realizações e frustrações, de atuações e omissões, de esquecimentos e saudades...

Pergunto-me hoje, já mais velho, quais foram os valores que me foram legados. Estou certo de que não foram aqueles índices classificatórios de valores: verdade, honestidade, retidão, justiça, etc. Posso mesmo afirmar que os valores se consolidaram sob a forma de episódios, ou situações, ou anedotas, ou pedaços de histórias, ou lances de zangas, amores, castigos e afeto... muito afeto; consolidaram-se à maneira da própria vida.

No fim das contas, a pirâmide de valores e princípios se desmonta e se refaz por diversas vezes na história pessoal e familiar de cada um, na medida em que vamos envelhecendo. Vira um grande baú, como na parábola da Escritura Sagrada, um baú de onde se tiram coisas novas e velhas, coisas boas e imprestáveis.

A pirâmide de valores vem como uma herança maior que se cria e recria, passada de pais para filhos e para os filhos dos filhos, de geração em geração, de forma quase encantada, viajando através da carne.
E aí, nesta herança-baú, se, por um lado, tudo é fragmento, tudo vem aos pedacinhos, por outro lado, tudo é integrado, tudo faz sentido, tudo é pleno.

E o grande valor da família, quando a gente se concede o privilégio de vê-la de longe é exatamente a plenitude que constitui seus pedacinhos. Mais ou menos como Carlos Heitor Cony escreveu em sua singela Quase memória (1996), referindo-se ao pai: Se ele viveu e morreu cheio de truques, de certa forma legou-me alguns deles. Foi sua herança a melhor, porque, entre outras coisas, única.
O Cony viu e sentiu esta herança como única, porque a viu e sentiu plena.
Bem, penso que já é hora de ir concluindo.

E nesse momento me vem uma tentação tão sedutora quanto saudosa do existencialismo que povoou minha juventude, à qual cedi com alguns limites.

É que a família não é uma síntese de pessoas, jovens e velhos, que perdem aí suas identidades próprias para formar uma substância nova e diferente, mesmo que Dürkheim, com toda sua autoridade de pioneiro da sociologia, tenha assim visto a sociedade.

Entretanto, o sentido maior da família, penso eu, está na permanência da identidade de cada um dos seus membros. Na riqueza destas identidades. Cada um sendo sujeito de seu próprio projeto.
Sartre, em troca, no melhor estágio de seu existencialismo, falaria que cada um é e deverá ser o que se fizer de si mesmo; cada um é e deverá ser o projeto de si mesmo. Projeto vivido a partir da radicalidade dramática da liberdade humana à qual ele, Sartre, nos acreditava todos condenados. Encanta-me esta radical opção pela primado da existência sobre a essência, pela liberdade como total abandono a si mesmo, pela subjetividade como único e radical suporte para a construção de si mesmo.

O que não consigo, todavia, é me conciliar com a conclusão derradeira do seu pensamento: a afirmação de que o nada é a fonte de todos os valores.

É que não reconheço ninguém assim. Sinto todos profundamente inseridos no drama das relações humanas. Apesar de experimentarmos o abandono como base de nossa liberdade, percebemo-nos inapelavelmente enraizados no singelo drama da vida e da família, um drama tecido e marcado no tempo pelos fios trágicos e doces do cotidiano.

Estou convencido de que é no bojo das relações familiares que cada um se faz gente e cresce, assumindo e refazendo a cada momento os valores herdados e. acima de tudo, articulando exemplos e testemunhos edificantes ou rejeitáveis, na proporção das reais limitações da condição humana. Julgo que não dá para ser muito diferente disso.

É neste bojo familiar que cada um vai se plasmando como pai ou mãe, nas novidades dos mais novos e na experiência dos mais velhos, com um bocado de surpresas e outro, de decepções toleráveis.
É neste bojo familiar que cada um vai se construindo pessoa, carregada de angústia e de esperança. Vendo a família como sendo ela mesma o grande valor, que ultrapassa todos os conflitos e contradições; o grande valor do qual emanam outros valores; valores reais, fatos históricos, situações cotidianas; valores feitos testemunhos pessoais de vida dados pelos mais velhos, assimilados ou desprezados, mas sempre lembrados com um tanto de remorso e muita saudade; valores concretizados na herança que a gente vai recebendo e mais tarde vai transbordando para os outros, ao longo da caminhada. Repito, julgo que não dá para ser muito diferente disso.

E nesse prisma – ouso acrescentar ao Drummond de Vila Rica: nas marcas do tempo, toda história é também saudade. Toda história é tão saudade quanto remorso.

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